Só os radicais não são livres

Postado em Endocrinologia por Plástica Montenegro

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Por Dr. Antonio Carlos Nascimento

CRM 75.426

 

Sob a ótica do ortodoxo, muitos costumes e dogmas se eternizam. Bons e ruins. Porém, a questão aqui é a ciência. Muito atraso foi imposto pela não aceitação do novo. Enquanto Louis Pasteur desmantelava a teoria de Geração Espontânea, imputando aos microorganismos processos infecciosos putrefativos e fermentativos, cirurgiões continuaram por anos a sair das salas de anatomia nas quais estudavam cadáveres diretamente para os centros cirúrgicos, a fim de operar doentes sem os mínimos cuidados com assepsia.

 

O código genético

 

Pois bem. O novo sempre assusta e ameaça. O mesmo pode se dizer do que chamamos de Medicina Antienvelhecimento. É claro que não se pode deixar de lado o grande sensacionalismo criado por deduções individuais e fantasiosas dos que ainda conseguem iludir aqueles que procuram melhoras em sua qualidade de vida com promessas milagrosas. Mas sabemos, por meio de estudos, que o ponto final da célula é a lesão irreversível de suas membranas. Apesar de o código genético dar maior ou menor resistência a ela, os chamados radicais livres são os que, em última instância, provocam a lesão de tais membranas, diminuindo gradativamente a função celular até a incapacidade funcional e morte. Os radicais livres são oriundos do metabolismo oxidativo, nos quais o imprescindível oxigênio se transforma. Eles são capazes de se ligar à membrana celular e nesta provocar lesões. Quanto mais radicais livres são produzidos, ou quanto menor for a capacidade de eliminá-los, mais se envelhece. Esses radicais livres podem fazer parte do processo de iniciação de tumores.

É sabido que as vitaminas E e C são potentes antioxidantes, assim como os polifenóis (aqueles encontrados em abundancia no vinho). O Ômega 3 (peixes são principais fontes) o licopeno (carotenóide encontrado especialmente em tomate) são poderosos antioxidantes com poder antitumoral definido. Contra fatos não existem argumentos. Recentemente, Antonia Trichopoulou, docente da University of Athens Medical School, demonstrou haver um risco 25% menor de morte por doença cardiovascular ou câncer nos indivíduos que consomem essencialmente a dieta do Mediterrâneo, a qual o vinho, o peixe e o azeite de oliva formam o tripé de sustentação.

 

Andropausa intensa

 

Não quero, com este artigo, provocar a corrida dos leitores à farmácia para adquirir vitaminas E, C, Ômega 3, licopeno, etc. Nem defendo que modifiquem radicalmente o padrão dietético. Tudo deve ser monitorado, revisto e minuciosamente adequado. Lembro-me de um paciente, hoje com 66 anos, que, recém-chegado a nossa clínica, queixava-se de insônia e diminuição da libido. Incisivamente, solicitava pesquisa para andropausa e deficiência de hormônio de crescimento. Acertou nas deficiências. As duas, porém, provocadas por um hipotireoidismo severo e não consequências da andropausa. O tratamento devolveu ao paciente a completa estabilidade clínica. Curiosamente, ao mesmo tempo, um outro paciente com queixas de adinamia, impotência e depressão, nos procurou elegendo hipotireoidismo. Contudo, o diagnostico firmado foi de andropausa intensa com os testículos bastante diminuídos ao ultrassom, sem história anterior de doença infecciosa testicular. O paciente é tratado com reposição hormonal masculina com total regressão de todos os sintomas. Não preciso dizer que esses dois pacientes e tantos outros são seguidos em nossa clínica quanto à endocrinologia do envelhecimento e todos os prismas que observam o Antienvelhecimento. Consertando o trocadilho: só os radicais não se livram dos radicais livres.

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