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Por Dr. Antonio Carlos Nascimento
CRM 75.426
O hipotireoidismo congênito (H.C.) é a falta de hormônio tireoidiano ao nascimento, seja total ou relativa. Celso, no século XVI fez a primeira descrição em literatura da doença. Se não tratado até três semanas de vida, o H.C. leva a retardo mental irreversível. O diagnóstico precoce é, portanto, a linha que separa uma vida normal de outra com alto custo emocional assumido pelos familiares e, por que não dizer, alto custo social.
É o teste de papel de filtro (teste do pezinho) que indica o H.C. Diagnostica ainda a fenilcetonúria, doença que se não tratada precocemente também leva ao retardo mental irreversível. Esse teste deve ser feito após as primeiras 48 horas de vida, obtendo-se o resultado o mais breve possível.
Para pesquisar uma das causas do H.C, analisei inicialmente a doença de uma forma global. Busquei entender toda malha técnica utilizada em nossos serviços de saúde pública ou privada no diagnóstico da doença. Avaliei pacientes oriundos de várias localidades de São Paulo e outros estados. Foi nesta abordagem inicial que concluí tristemente que boa parte destes pacientes já possuía danos mentais irreversíveis, mostrando que o sistema de detecção neonatal da doença não existe em boa parte destas localidades.
Em 1893, o estado de São Paulo criou a lei n°3.914, e em 1990 a União com a lei n°8.069, que tornaram obrigatória a feitura de tiragem neonatal para H.C. A portaria nº822 de junho de 2001 traz novas normas de tiragem neonatal de doenças congênitas. A despeito das leis, o quadro vigente quanto à incidência de H.C. é no mínimo entristecedor.
Em minha experiência clínica nas buscas de casos de H.C. em dois municípios da Grande São Paulo, onde já existe uma rede empenhada no diagnóstico e tratamento precoce da doença, não foi rara a ocorrência de diagnósticos tardios. Principalmente por conta da desobediência dos pais em relação à orientação de procurarem os postos de saúde após a alta para realizarem o teste no bebê. A total desinformação por parte dos pais quanto à gravidade da doença é fator majoritário que leva a esta desobediência. O atraso na entrega dos resultados é possível, porém a busca ativa no caso de detecção da doença é hoje a regra nos municípios desta região.
Com matemática simples, é fácil entender a gravidade do problema. Se a incidência de H.C. é de um para 3.500 nascidos vivos, nascendo aproximadamente três milhões de crianças ao ano, e com acesso à triagem neonatal sendo permitida aproximadamente a 1,8 milhões, os 1,2 milhões restantes fornecerão perto de 350 crianças com retardo mental irreversível. Número este que é repetido a cada ano, aceitando ainda que todos os 1,8 milhões que possuem o acesso ao teste sejam triados sem falhas nos serviços de detecção.
A conclusão óbvia deste texto, é que, apesar da sociedade médica estar se mobilizando e valorosos serviços, e entidades funcionem muito bem em algumas localidades, a solução do problema só ocorrerá com uma campanha direcionada para a população.
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